segunda-feira, 9 de março de 2015

O nosso fado é outro

Um punhado de autores da filosofia e da teoria políticas ensinou-nos dessa diferença e distância fundamentais entre a atitude de constatação do que existe e a de conseguir imaginar o que pode existir. Do lamento e crítica para o ensaio de possibilidades que nos permitam terminar com o que move esse lamento. Do desespero para uma estratégia. Um pouco por todo o mundo onde vigora um discurso que se pretende hegemónico sobre o actual estado de coisas (vivemos-no-melhor-dos-mundos-possíveis ou o neo-liberalismo é um fenómeno natural do progresso humano) há um trabalho gigante e permanente do sistema em dissimular que oprime e em dissimular que fabrica estes mesmos discursos. Eles invadem as esferas mais inesperadas e operam a níveis que não conseguimos nem conseguiremos, sempre, entrever. 


"Porque batem os homens nas mulheres" é o título de uma reportagem da sic (5 março 2014). A pergunta nunca é merecedora de tentativas de resposta. Não há neste trabalho jornalístico mais do que o enumerar de situações de violência. Confirmam-se com as vítimas as suas agressões, ouvi-mo-las repetir os crimes de que foram alvo. O trabalho jornalístico não está muito longe das cronicas do crime da Fátima Lopes ou do Correio da Manhã na sua grande maioria. Ou seja, alimentam um nicho de mercado, o share televisivo com o macabro, com o que choca, com o que vende. As facadas que deu, o sangue que jorrou. As mortas e os seus familiares voltam a ser vítimas e numa dimensão nova porque os novos algozes empurram-nos para um espaço de espectacularidade onde o estrelato de ambos (vítima e agressor) é imediato ("they call me the wild rose"). Para além de nos empurrar, por ausência de outros discursos, para esse tal de mundo onde não há alternativas e de onde não é possível sair. 


A  mesma Sic promoveu com a APAV, por ocasião dos seus 25 anos, um vídeo muito infeliz sobre a violência contra as mulheres. Que em nada diz sobre o excelente e difícil trabalho desta associação ao longo deste anos e em nada acrescenta ao trabalho de excelentes músicos e intérpretes. Um vídeo que confirma sem questionar as lógicas viciosas entre agressor e vítima, um vídeo que internaliza a ideia da mulher como resignada e não operante na sua condição, um vídeo que nos confronta com a incapacidade, mais uma vez, de nada podermos fazer no nosso mundo para além de chorá-lo. A ideologia do conformismo a ser servida no Dia da Mulher, usando-se da opressão que cai em particular sobre ela, para nos ensinar a todos que o cansaço é legítimo mas é só dentro dos seus limites que podemos buscar consolo. 





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