quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A menina dança?

Para não dizerem ou alguém se enganar a pensar que o machismo é coisa de homens chega-nos este contributo, também em forma de relambórias gargalhadas. Maria João Avillez, que verve! Não lia tanto adjetivo junto desde os exercícios da 4ª classe. 

"Como não sou o televisivo Porto Canal não peço desculpa. É exatamente isto que penso e quero dizer: azougadas raparigas" Um pouco mais acima diz "azougadas raparigas com prazo de validade". Ou seja, num texto que é um mimo e um conforto para quem quer que esta gente desimpeça o caminho, consegue designar os seus adversários políticos como "as raparigas". Até podia referir-se ao recalcitrante pcp e às mulheres do Bloco, uma vez que é bem visível e um facto novo um partido no nosso país ser liderado e representado publicamente por mulheres, falar por isso nas mulheres do Bloco podia ser não um sinal negativo. Mas Avillez, do fundo da sua reacionária vivência como mulher, chama-lhes as raparigas. Procurando diminuir assim politicamente uma adversária com um argumento que não diz mais do que a ideia que tem de si própria. Tem mais graça o Grouxo quando diz "eu não aceitaria pertencer a um clube que me aceitasse como membro". Ainda assim espero que Avillez não tenha prazo de validade porque quem nos contaria depois das unhas sujas do Helmut  Schmidt?
  

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Do arrojado machismo

O Bloco de Esquerda não devia exigir desculpas ao senhor que no Porto Canal nos fez soltar francas gargalhadas, vindas daquele sítio onde personagens como Diácono Remédios as arrancavam deliciosamente.
O mestre humorista sabe que nos rimos das caricaturas, de algo parecido com o que existe na realidade mas com alguns traços exagerados. Todos conhecemos Diáconos Remédios mais ou menos simpáticos mas a sua personagem concentra exageradamente as características que nos permitem agrupar num só os vários tipos de falsos e pidescos moralistas. A caricatura permite assim tornar visível ou destacar o que poderia dissimular-se nas práticas e vivências quotidianas dos pequenos ou grandes diáconos remédios com que vamos lidando ao longo da vida.
Pedro Arroja, na sua intervenção televisiva sobre as deputadas do BE, faz soltar uma gargalhada porque todo o discurso encarna a caricatura do machismo presente na nossa sociedade. E ninguém está à espera que uma pessoa de verdade se transforme numa caricatura, apesar dos tempos particulares que vivemos nos surpreenderem com grandes, e quiça dramáticas manifestações nesta área. Pedro Arroja não é um sucedâneo, é um objeto pedagógico que nos chega de forma livre e genuína. 
O BE, por isto, devia agradecer esta intervenção. Podemos andar a discutir o assédio (com debates sobre o piropo), a lutar contra grupos de direita que, à sorrelfa, fazem passar uma lei sobre aconselhamento obrigatório à mulher que pretenda interromper a gravidez, podemos alertar para as centenas de comentários misóginos e violentos sobre uma ação de denúncia numa barbearia, mas nada é tão claro e transparente para compreender o que é isso do machismo como um discurso com este gabarito.
Devia defender-se, desde já, a inclusão nos curricula escolares o visionamento deste discurso quando se ensinam as discriminações presentes no passado e presente, nas aulas em que se discute cidadania, racismo, machismo, homofobia. Perante os compromissos internacionais que o país estabeleceu, se não fosse por nós próprios, é uma obrigação fazê-lo. Estamos obrigados, como a pagar a dívida, nos Tratados Europeus que subscrevemos, a defender e a promover políticas ativas de combate à desigualdade, a económica, social, e de todas, em especial, a desigualdade entre homens e mulheres.

domingo, 1 de novembro de 2015

"Sacrifica-a antes pela próstata, homem!" ou como uma ideia de masculinidade mata homens cisgénero (para além de mulheres, gays, queer, trans) e como os babeiros misóginos-totós tentam obter uma aura de responsabilidade social quando são só merda


Aí está "Movember": uma campanha de alerta para o cancro da próstata e dos testículos iniciada por uma ONG que é, actualmente, uma campeã de recolha de donativos.

"Movember" é uma espécie de resposta ao "Pinktober", mês dedicado à luta contra o cancro da mama. Haveria logo aqui pano para mangas mas, em última análise, qualquer campanha mensal de luta contra qualquer cancro é uma coisa que pode sempre ter óptimos resultados por mais pano para mangas que haja nas suas motivações. O que me interessa trazer aqui à discussão é que o cerne de "Movember" é uma ideia de masculinidade que se manifesta em toda a sua perversão: a campanha recorre à ostensão de bigodes como expressão testosterónica simbolicamente compensatória do toque rectal, o meio de diagnóstico primário precoce do cancro da próstata. E eu não preciso de me alongar muito nisto, penso, porque a ideia machista "masculino-penetrador-nunca-penetrado" é um jogo que eu não inventei e que não jogo. Não deixa de ser irónico, portanto, que a estratégia de quem pretende chamar a atenção para o flagelo que é um cancro da próstata, sendo qualquer cancro um flagelo, passe não por afirmar taxativamente que a ideia de masculinidade está a matar homens cisgénero, mas por passear uma das causas do problema com orgulho.

Quanto às relações entre "Movember" e racismo, sexismo, misoginia, homofobia, transfobia sugiro a leitura deste artigo e deste.

Por fim, porque estas coisas reverberam sempre em forma de paródia em território nacional, informo que ontem apanhei num telejornal uma "notícia" sobre a adesão da barbearia Figaro's à campanha, retratando os barbeiros-misóginos como um exemplo de responsabilidade social. Foda-se, é só rir.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

The Logic of Gender On the separation of spheres and the process of abjection

Sex is the flip side of gender. Following Judith Butler, we criticise the gender/sex binary as found in feminist literature before the 1990s. Butler demonstrates, correctly, that both sex and gender are socially constituted and furthermore, that it is the “socializing” or pairing of “gender” with culture, that has relegated sex to the “natural” pole of the binary nature/culture. We argue similarly that they are binary social categories which simultaneously de-naturalise gender while naturalising sex. For us, sex is the naturalisation of gender’s dual projection upon bodies, aggregating biological differences into discrete naturalised semblances. 

While Butler came to this conclusion through a critique of the existentialist ontology of the body, we came to it through an analogy with another social form. Value, like gender, necessitates its other, “natural” pole (i.e. its concrete manifestation). Indeed, the dual relation between sex and gender as two sides of the same coin is analogous to the dual aspects of the commodity and the fetishism therein. As we explained above, every commodity, including labour-power, is both a use-value and an exchange-value. The relation between commodities is a social relation between things and a material relation between people


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Um adão passeando pela brisa da tarde

Nunca te amigues numa rede social com um escritor vivo de que gostes, as consequências são inusitadas e imprevistas. No último ano li o Mário de Carvalho escrever no seu mural sobre o valor da pátria acima de outros ou como valor em si, li o escritor saudar os valores da civilização ocidental sobre os acontecimentos do Charlie Hebdou, noutro momento a dar vivas à civilização contra não-sei-que-barbárie que habitaria não-sei-em-que-lugar fora dela. A genealogia seria Atenas, Roma, o império de Carlos Magno, o império Austro-Húngaro, a Europa das Luzes, a Revolução Francesa e a as democracias do pós-guerra? Qualquer coisa assim porque essa civilização é a Europa. Esta semana o escritor convida as mulheres (citanto correctamente convida as "senhoras") a apreciarem os atributos físicos dos candidatos masculinos às eleições legislativas em vez de encherem a boca com o "machismo" de algumas intervenções na campanha que versaram as qualidades físicas de candidatas femininas. O círculo completa-se nesta relação estreita entre nação e machismo. Como bem sublinharam algumas camaradas curdas, a existência e a forma do estado-nação está imbricada nas relações de poder entre dominado e dominador, e nestas a desigualdade entre homem e mulher é matricial e necessária. A barbárie está em todo o lado, felizmente.

domingo, 13 de setembro de 2015

No Brasil um dos maiores espólios de fotografia sobre escravatura




 "In Brazil today, at least 600,000 people are formally registered as domestic staff — nannies, cooks, cleaners. And of those, 96 percent are women. More than half of those women, according to recent statistics, are from the darker-skinned, poorer sectors of society.
The nannies who work with the wealthy are all obliged by tradition to wear white uniforms. (Private clubs only allow nannies to enter with their charges if they are dressed in white). If you look at the pictures from the Moreira Salles Institute, you can see that tradition began with slavery in Brazil.
Sonia dos Santos is a professor and an activist with the black women's rights group Criola. I showed her the images and asked her what she thought of them. She said it reminded her of a statistic she recently heard, that 1 in 5 black women are domestic workers in Brazil today.
"This social condition of inferiority ... is more than just because they are domestic workers, it's because they are black and because they are women," dos Santos says. During slavery, black men were deemed more valuable than black women, even though black women were a huge part of the slave economy" 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A história da menstruação pela Disney

Para explicar à Cinderela e à Branca de Neve o que era ter o período a Disney, com o patrocínio de uma empresa de pensos e tampões, fez este filme em 1946.


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O sangue azul é venoso, ou seja, pobre em oxigénio

Nunca tendo lido nada escrito por ele até à data fiquei deveras impressionada.
Também os mais idosos deveriam preocupar-se pois, pela mesma lógica, poderá a vir a ser no futuro “ despenalizada a interrupção da velhice” a pedido dos familiares! Os velhos física ou mentalmente inválidos são um grave problema para as famílias e um peso económico para a sociedade.Talvez seja um sinal para nós o dia 11 de Fevereiro ser o dia de N. Senhora de Lourdes, que disse à jovem Bernardette:
“Eu sou a Imaculada Conceição” (referindo-se ao "pecado original"). O que quer dizer: Eu sou Imaculada desde que fui concebida. Deus tem um projecto para cada um de nós, e ao impedir o nascimento de um ser humano estamos a hostilizar o Criador.
Muito mais grave será se for a Nação Portuguesa a fazê-lo oficialmente.
 
Dom Duarte de Bragança em 2007 a dias do referendo sobre a despenalização da IVG

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A linguagem é determinante na informação sobre violência de género

 "Las películas de psicópatas y asesinos en serie constituyen una socorrida variante para que los relatos se deleiten en el voyeurismo sádico contra las mujeres. En efecto, la introducción de una figura de diabólico perturbado permite mostrar con suma complacencia -pero salvaguardando las formas- el sufrimiento de las mujeres. (…)“No soy yo quien hace sufrir a esta mujer, es un malvado. Yo sólo me limito a mostrarlo y tú te limitas a mirarlo”.
Pilar Aguilar

F.-¿Qué películas nos recomienda para aproximarnos adecuadamente a la realidad del feminicidio?
S.H.-Algunos documentales como Señorita extraviada, Bajo Juárez, La carta, Ni una más u On the edge, realizan un estupendo trabajo en este sentido y consiguen una alta identificación de la espectadora o espectador con las protagonistas del relato que en este caso son madres y hermanas de las mujeres asesinadas, así como expertas y activistas contra el feminicidio.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Espalharam a fome e a miséria e ainda vêm aos nossos úteros

Diogo Pimentão, We find wildness


Bem podem dizer muitos católicos que a Igreja evolui e que o grupo talibânico de Isilda Pegado é uma minoria que não os representa. Podem dizê-lo sem grandes consequências, a verdade é que, a coberto da apresentação de uma petição abjecta vinda deste grupo, o governo apresentou, à revelia da participação dos principais intervenientes na área, a proposta de implementação de taxas moderadoras para o acto médico da ivg bem como o fim da baixa médica para a mulher que interrompe voluntariamente a gravidez. O CDS, aquele partido dos 11% que governa o país como se representasse metade dos votos que elegeram os dois partidos em coligação, vai mais longe que o PSD e diz que está disposto a apoiar algumas das ideias da petição como a consulta ao homem que participou na fecundação. Se for possível imaginar tal processo ficamos sem saber para que serviria esta consulta, para ficar em acta? O que sabemos é que, a poucos meses do fim desta legislatura, este governo pretende deixar de forma cobarde, anti-democratrcamente, como foi apanágio do seu mandato, mais uma marca das suas políticas de retrocesso social e político.
E o que já sabíamos mas não será demais lembrar é que a ideologia do CDS se revê na ideia da mulher tutelada por um homem, ao espírito de um certo tempo de uma certa época. É a este partido que compete a responsabilidade, por exemplo, da Segurança Social, impregnando com as suas ideias de desigualdade um instituto que é um garante da coesão social. Impregnando de lugares para os boys este ministério como no do Ambiente, como já o tinham feito na Defesa no tempo do governo Durão Barroso, aumentando, à maneira de um conde de Abranhos, a sua influência como nunca o fariam se ela resultasse de uma representação política. O partido que recebeu directamente na sua conta bancária (do BES bem entendido) dinheiro da venda de submarinos é o partido responsável pela venda da TAP. É difícil encontrar pior no espectro partidário português da última década. É nesta coerência na sujeira que a petição pelo direito a nascer encontra eco nas suas propostas de aviltamento da mulher. Não há contradições, quem se comporta e age no mundo para que ele seja mais desigual e injusto será o primeiro a atacar um gesto de liberdade, como é, neste caso, o da mulher ser dona do seu corpo.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

We can what...


We can matar, oprimir, atrocidar, humilhar, destruir, colonizar, violar, torturar... We can tudo para que as mulheres palestinianas se verguem todos os dias aos nossos pés.



.Tsahal o exército de exterminação dos palestinianos.

domingo, 21 de junho de 2015

sábado, 13 de junho de 2015

Horrores do colonialismo


Quando se fala no colonialismo francês reduz-se diretamente os horrores coloniais ao período da guerra pela independência argelina de 1954 a1962. Por vezes esquecemos, porém e com isso, que os horrores e humilhações duraram quase dois séculos e que esses dois séculos de opressão colonial têm consequências nas relações sociais atuais entre populações…  Esta fotografia em baixo mostra dois soldados franceses a brincar com a sua vitima… olhar para ela é lembrar que o colonialismo é também uma forma de expropriação dos corpos.
Um bem-haja a todas as Lalla Fadhma N'Soumer deste mundo.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

que las hay las hay




"(...) a história da ciência demonstra que nunca houve uma simples definição do sexo ou mesmo uma simples maneira de estabelecer as diferenças entre os sexos. Isso foi contestado durante muito tempo. Não significa que não existam diferenças materiais que podemos encontrar, mas há sempre excepções, especialmente quando se trata de indivíduos intersexuais. E há continuidades interessantes ao nível das hormonas e dos genes. Talvez devêssemos então aceitar a variação e a complexidade sexual dos humanos. Quando nos referimos a uma diferença material entre os sexos, recorremos a um antigo esquema conceptual de modo a nos entendermos sobre o que dizemos. Temos de ter em conta o facto de que há muitas maneiras diferentes de estabelecer o sexo, o que significa que nenhuma definição goza de uma hegemonia cultural. E isto não significa que o sexo não existe. Há sexo! Mas se formos convidados a dizer o que queremos dizer, temos de optar por uma visão ou outra, e há muitas."

Butler em entrevista ao Ípsilon. É vê-la dia 2 de Junho, no Teatro Maria Matos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Bollos - comer o insulto



Se a palavra para insultar lésbicas em castelhano fosse "mierda", teríamos um problema. Mas com "bollos", como "bolacha" no Brasil, a estratégia de reapropriação narrativa, performativa e corpórea não só é radical como completamente saborosa. Como os efeitos da narrativa de abjecção do outro não ficam sob controlo de quem profere o insulto, "bollo" abre as portas para ver surgir o "sujeito imprevisto": a outra toma a palavra e come-a bem comidinha. Foi bom ouvir a dupla CABELLO/CARCELLER no ciclo Gender Trouble.

https://vimeo.com/19736325

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Cinema no Rotas & Rituais

Guerrilla Grannies - How to live in this world

Ike Bertels



Documentário, Holanda, 2012, 80’
Legendas: Português e Inglês; M/12
Guer­ri­lha Gran­nies conta-nos a his­tó­ria de três mulhe­res guer­ri­lhei­ras que, ao luta­rem com o Des­ta­ca­mento de Mulhe­res do Exér­cito de Liber­ta­ção da FRELIMO, não só aju­da­ram a liber­tar o país do colo­ni­a­lismo por­tu­guês, como tam­bém, abri­ram cami­nho à eman­ci­pa­ção das mulhe­res moçambicanas.
Ike Ber­tels mostra-nos três momen­tos impor­tan­tes da vida de Mónica, Amé­lia e Maria, per­mi­tindo um olhar único sobre o desen­vol­vi­mento des­tas mulhe­res, que pare­ciam estar des­ti­na­das a tra­ba­lhar a terra e a ter filhos. Estas his­tó­rias de vida, que acon­te­cem num país que se rein­venta, mos­tram como os ide­ais revo­lu­ci­o­ná­rios – neste caso, a igual­dada entre homens e mulhe­res e a pos­si­bi­li­dade de acesso à edu­ca­ção – podem tornar-se reais quando as pes­soas – mulhe­res – estão dis­pos­tas a lutar pelas suas vidas.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Maria Capacho

Não tem sido fácil pegar nas questões que levanta um projecto como é o site da Rita Ferro dedicado às mulheres. Porque se por um lado parte do pressuposto de que há um problema preemente nas questões da igualdade de género, com o qual é fácil concordar, e se dá voz a alguns textos interessantes, por outro lado, através da vivificação de uma ideia de mulher encosta-nos de novo ao sítio de onde queremos e precisamos de sair. Basta tão somente abrir a página e eis que a pub a dar as boas vindas são papas nestlé para o bebé e imagens de mulheres esbeltas e uniformes vestidas e despidas pela H&M (a mesma que explora milhares de mulheres noutras latitudes). Os produtos que escolheram este site para fazer a sua publicidade encontram no projecto emancipador da condição feminina uma aceitação que confirma de forma imediata os papéis de mãe e de boneca para vestir a que a cultura dominante procura encostar, irredutivelmente, a categoria mulher. Ou seja, longe de questionar estes papéis, recusando, por exemplo, uma publicidade tão óbvia e evidente, o site inscreve-se numa lógica não muito diferente desta escolha como podemos descobrir pesquisando um pouco no conteúdo propriamente dito. 



Num artigo sobre uma design que inventou estas t-shirts descobrimos que foram feitas a pensar em libertar a mulher da categoria violenta de bitch e transformar a categoria nas coisas que todas gostaríamos de ser. Mas são as mulheres que querem ser belas, inteligentes, talentosas, charmosas e hot mesmo que em dias alternados? Ou são os seres-humanos em geral e em particular alguns com mais insistência? Que acto provocador ou emancipatório existe em insistir que é a mulher que quer ou se pretende bela? Que charme existe em alguém que longe de contestar as categorias que a enunciam antes dela existir procura encaixar-se e conformar-se a isso tudo?

domingo, 3 de maio de 2015

Lucy Parsons e o 1º de Maio

Lucy não é só o nome de um dos filmes barrete de 2014, Lucy Parsons esteve ligada aos acontecimentos que em Chicago no ano de 1886 deram origem às celebrações em todo o mundo do Dia do Trabalhador.

terça-feira, 28 de abril de 2015

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Supremo interesse

Acabadinha de sair de um vídeo sobre regime de reprodutividade biopolítica, chego a esta notícia, numa espécie de "ou seja", de "por outras palavras" para esta episteme que é "the uterus must be controlled by power". Mesmo o útero de uma criança violada é uma fábrica biopolítica que coloca algumas pessoas a darem cambalhotas argumentativas como esta «A diretora do departamento de pediatria do Hospital de Santa Maria, Maria do Céu Machado, disse ao CM que "num sentido geral prevalece o princípio ético de proteger o supremo interesse da criança". E quando existem duas crianças, "é necessário proteger o interesse de ambas".» Ou seja, por causa de um "sentido geral", "um princípio ético" e um "supremo interesse da criança" faz-se o que não tem o mínimo sentido, o que é eticamente escabroso e em nome de um interesse inexistente contra uma criança que existe e que foi vítima de uma violação e que o será de novo... pelo estado.

domingo, 12 de abril de 2015

A morte de uma guerrilheira



Caiu em combate dia 6 de Abril Viyan Peyman que tinha gravado esta música sobre a defesa de Kobané dois meses antes. Longa vida ao povo curdo e à sua coragem.





terça-feira, 24 de março de 2015

Um dos dilemas da manipulação psicológica



Pode durar meses ou anos, mas numa fração de segundos podemos compreender que não há mais infinito. No post “o nosso fado é outro”, conita riot mostra como o vídeo/canção “cansada”, promovido pela SIC e pela APAV, reitera, sem questionar, as dinâmicas viciosas que existem entre opressor e vitima. A letra e a sua representação versam tanto sobre a violência como a resignação da mulher, quando aquilo de que a vitima precisa é de energia, soluções e lucidez diante da manipulação psicológica de que é alvo. Porque a violência, muito antes de ser física, é psicológica. E essa é difícil de ser cantada. 

Um dos dilemas da manipulação psicológica é que não a vemos chegar. Ela é exímia e vem devagar, tão devagarinho que debilita pouco a pouco com a doçura da poesia na qual se apoia. O tempo é a variável chave de dominação, porque a felicidade está ali já ao virar da esquina. Mas ela não está dependente do ritmo da tua passada, mas daquele que possui o cronómetro. A caminhada pode durar meses ou anos, mas como a felicidade está ali tão pertinho de nós, podemos esperar, tolerar, aguentar qualquer coisinha. E é nesse compasso de espera, em que aguentas, pois claro que aguentas, que as piores manipulações ocorrem. Tu dizes que os factos são verdes e dizem-te que isso são vulgaridades vermelhas. Tu dizes que os factos são vulgaridades e dizem-te que isso não é real. Tu enches o peito para dizer que o que se está a viver é um facto e dizem-te que tu não compreendes o que se está a viver. 

Questionas assim a tua inteligência e sensibilidade ao amor que nos surpreendeu um dia e que afinal é assim tão raro. Bonitas palavras enchem essa espera, embora cruéis no seu pragmatismo, elas são românticas porque a felicidade está ali mesmo ao virar da esquina. Toda a gente sabe à nossa volta que esse compasso de espera não tem fim e que essa felicidade te é vendida a baixo preço, porque já expirou. Mas ainda assim, esperamos, esperamos, esperamos até que o inferno comece a dobrar-nos e nos ponha de joelhos, a implorar a felicidade que estava ali aos nossos pés. Mas numa fração de segundos compreendeste ou podes compreender que a espera não é obrigatória e que a felicidade pode estar ao virar da esquina, sem que ela tenha de ser cronometrada por alguém a não ser por ti mesma. 


Ver letra da canção aqui.     

domingo, 22 de março de 2015

As 72 virgens no paraíso terão caído de uma barca assim?

Um escritor dos nossos dia, estudioso da cultura do centro da Europa, fazedor da cultura do centro da Europa.

"Com uma insistência amável, Newesklowsky detém-se repetidamente, no seu livro, no "Moidle-Schiff", sobre a alegre barca de 150 raparigas suabas e bávaras que o duque Karl Alexander de Wurttemberg enviara em 1719, depois da paz de Passarowitz, para os oficiais subalternos que ficaram como colonos alemães em Banato, a fim de que estes pudessem tomar mulher e enraizar desse modo uma presença suaba em Banato, que deveria tornar-se um dos capítulos centrais da história da civilização da Europa sul-oriental. Esta barca com 150 raparigas, cujas numerosas virtudes desembarcadas foram tema de tantos Lieder, seria uma embarcação ideal para se fazer esta viagem, sem sobra de pressa  ou até desejando não chegar nunca".

Cláudio Magris, Danúbio, Biblioteca Sábado, 2009, p.58