quarta-feira, 11 de março de 2015

ainda sobre a ação "Ninguém Nasce Cão"



(As linhas que se seguem foram escritas por várias pessoas em jeito de resposta às perguntas de Ricardo Sobral para uma reportagem publicada na Gazeta, do CENJOR.)


A acção na barbearia Figaro's teve amplo destaque mediático e foi alvo de várias reacções, quer nos comentários às notícias, quer de alguns cronistas. Esperavam um destaque desta dimensão e estas reacções que se têm manifestado? Que leitura(s) fazem do resultado?



Não esperávamos. Um dos objetivos foi amplamente superado: lançar a discussão sobre uma imagem que, num contexto de “defesa” no âmbito do marketing ou “piada”, nos remete para uma imagética de exclusões várias. Não é admissível - aliás é ilegítimo - o gesto de fazer marketing ou piada com a exclusão, neste caso de mulheres. Tal imaginário não é desligado da realidade para o qual aponta nem de questões éticas. Não é apenas um “conceito”, como foi defendido pelos adeptos deste “apontamento” segregacionista nem se circunscreve à “representação”. Estes conceitos e representações nunca são só aspectos de imagem, são realidades concretas: a exclusão de mulheres não é uma imagem ou uma palavra, ela existe, é real. Assim, estas pessoas da barbearia, por exemplo, não excluem só pelo verbo ou pela iconografia com patine em jeito de decoração, expulsam realmente. Desta forma, não estamos no âmbito das representações como estética mas sim do que isto significa, aliás, bastou pouco para passarem da sua “representação” de gentlemen - homens à “moda antiga” - para grunhos com paus na mão. Não há estética sem ética.



Claro que, entre nós, existiam alguns objectivos distintos. É natural. Para quem queria um resultado concreto e imediato naquela espelunca, o enxovalho continua e o acto, enquanto acto cívico, não produziu o efeito da placa deixar de estar lá… De qualquer forma, parece-nos que desestabilizámos a “normalidade” de ter uma semelhante placa.


Da nossa parte, apesar do pêlo na venta, não queremos fazer a barba naquele local, aliás, nenhuma de nós tem vontade de usufruir dos serviços do estabelecimento. Quisemos demonstrar que este discurso é inadmissível. É a diferença entre acessibilidade a um espaço e usufruto de um serviço, que pode ser mais ou menos dirigido. É por isso que não fomos lá cortar o cabelo ou exigir um corte de barba mas sim exprimir uma posição, carregando numa imagem que demonstra, pelo exagero, o que realmente significará o “conceito” do estabelecimento de que os cães podem entrar e as mulheres não. Tal como não se nasce mulher, torna-se, também ninguém nasce cão. Essa condição pode ou não permitir-se, e transformar-se.

“As mulheres não se podem comportar assim”, ouve-se. Ora, pois podem e devem.

(Por exemplo, partimos nozes com as mãos enquanto respondemos a entrevistas.)

Para além deste elemento - o discurso para o qual esta imagética remete -, a discussão gerada em redor deste assunto veio demonstrar a fragilidade de uma certa ideia de masculinidade, de exclusividade ao masculino que se sente confortável numa simbologia e prática de regressão nas conquistas históricas de direitos das mulheres, de homossexuais, de transgénero, de queer e grupos minoritários, em prole do seu prazer sectário...
O volume de comentários misóginos, insultuosos, machistas e violentos demonstram a evidência da necessidade da ação. Não hierarquizamos lutas, o exemplo da acção na Figaro´s barbershop reflecte o quão os vários ângulos de discriminações são indissociáveis. Para aqueles que nos acusam de fazer um alarido em torno de um fait divers insignificante, numa paisagem desolada pela crise e onde a violência doméstica e as diferenças salariais deveriam prioritariamente ser alvo de protesto, respondemos que, por um lado, ao focalizarmos a nossa ação na barbearia estamos também a tocar nesses pontos, como o debate despoletado evidencia e, por outro lado, que o moralismo militante nos afecta pouco (waf-waf!).


Outra ideia largamente propagada, é o facto de ser um espaço privado que pode ter o tal “conceito” diferente e que, por isso, a haver descontentamento, o barulho deveria ser feito cá fora, ou no ato extremamente arriscado de distribuir panfletos. Para nós, e para muito boa gente, as liberdades conquistadas não acabam entre quatro paredes nem podem subalternizar-se à lei da propriedade privada. Para além de que uma loja não é um espaço privado. Ponto. E para além de que um discurso destes - “homem entra, cão entra, mulher não” - é um discurso completamente político. É, nesse sentido, público. A política faz-se na ação e na linguagem, não na obediência. Comportar-mo-nos “mal” é, em muitos casos, agir politicamente “bem".

O que esteve na origem do blogue Interpolação e quais os motivos que vos levaram a optar pelo anonimato?


O cu não tem a ver com as calças. Esta ação reequilibrou-nos a flora vaginal (com excepção de uma de nós, mas que já está em tratamento, e de outros três, simplesmente porque não têm flora vaginal) e alinhou-nos os chacras num só ato. Ou seja, a ação “Ninguém não nasce cão” foi efectuada por um colectivo contingente, um grupo de pessoas para uma ação específica.
Quanto ao blogue Interpolação, este surgiu da ideia de discutirmos o machismo do quotidiano, a partir da sabedoria que nos aufere a fruição de uma vagina ou então uma consciência de género bastante polida. Estamos por isso longe de desejar cumprir uma agenda política. Interessa-nos uma coisa mais regular, normativa e “normal” do que a efeméride do Dia Internacional da Mulher que marca a celebração dos direitos da Mulher de uma forma institucional e cerimonial. Preferimos ainda assim chafurdar na merda do que na imanência.
Em relação ao anonimato, não é politicamente interessante personalizar as palavras e as ações. É uma luta e corpo colectivo, ainda que pensemos todas por sua cabeça. Sendo isto um mundo cão, decidimos usar máscaras e, como a reação dos de barbeiros bem demonstrou, não são alheias as questões de segurança. É preciso garantir a segurança de quem intervém, antes e depois. Por exemplo, no trabalho de cada uma e perante as ameaças de represália.
É importante não haver um processo de individualização ou de protagonismos. Por trás daquela máscara podia estar uma mulher, um homem, uma pessoa qualquer. Ter um rosto é ficar refém de como te referencias. O anonimato tem a potência de ser o todo. Não reivindicamos ser o todo (nem o todo, nem 99%). Mas, no anonimato, somo-lo em potência (ou “somos ninguém”, o que, para o caso, resulta no mesmo) e, neste caso concreto, era isso que fazia sentido. Noutras ações, admitimos que fizesse menos.

Que outras acções fizeram até hoje, além da da barbearia, que tenham ido além do âmbito do blogue e do online?


Algumas de nós participaram numa ação anterior a que chamámos “Não trabalho para o teu prazer”, um manifesto desagrado por uma iniciativa promovida pela DRESS FOR SUCCESS que tinha como lema as mulheres são vestidas para vencer, calçam o salto alto e preparam-se para conquistar o mercado de trabalho”.
Pensamos que esta é uma boa resposta a quem bombardeou comentários nas redes com exemplos do ginásio Vivafit e semelhantes. A nossa anterior ação foi contra uma organização de mulheres que duplica a ideia de que existem espaços de mulheres para exercícios de “adequação” a uma lógica de que a mulher se pode resumir a um adereço de prazer em contexto de trabalho. Ser magra, maquilhada, bem vestida. Nessa altura, reivindicamos que esta ideia de mulher, de trabalho e de sucesso devia ir toda para o caralho. Ou seja, as missões de emancipação da mulher de fachada libertadora e moralizadora, que escondem sobretudo a ideia de uma feminidade essencialista, podem fazer igualmente parte do nosso combatente.


Que descrição fazem da situação actual do feminismo em Portugal?


Partimos da ideia de que não existe apenas um feminismo, mas vários, que pode ir desde a resistência individual quotidiana à resistência organizada e colectiva contra a dominação masculina. Neste sentido não nos cabe a nós fazer uma análise do feminismo em Portugal, deixaremos esse trabalho para os cientistas sociais interessados na questão.  Portanto, mais do que descrever a situação atual do feminismo em Portugal, preferimos falar do sexismo e da violência de gênero de que as mulheres continuam sendo as principais vítimas, como dá testemunho este curioso e-mail que recebemos.


Depois de ver o vosso vídeo na barbearia de lisboa, aqui fica a minha opinião!
Nunca na vida vi um grupo de gente tão merdosa e badalhocas como vocês!
Gentinha de merda sem nada para fazer!
O que é que vocês querem da barbearia?? Crescer a barba ou rapar os pelos do cú?
Só tenho pena que não tenha estado presente nesse momento, pois dava-vos tantos murros e pontapés nesses focinhos de gente porca e sem valores, que em menos de 5 minutos voltavam imediatamente ao vosso estuto oficial, ou seja, repositórios de ESPORRA!
No entanto falta-vos a coragem naturalmente de invadirem as mesquitas islâmicas em Portugal, onde as mulheres têm menos direitos que um cão!
Mas é claro, porque aí, voces sabem bem que o civismo não tem lugar, e aí para além de murros nos cornos ainda eram enrrabadas em grupo, para sentirem que o HOMEM é que manda!
VIVA O HOMEM! Sim, ELE que vos fode essas conas todas!
Fica aqui um vídeo demonstrativo de que o homem manda, e a mulher engole!
Beijos suas porcas
Mário Soares - Pai do DEboche e da esquerda podre!”


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