domingo, 5 de outubro de 2014

Nascer é uma Utopia

O futuro é uma utopia. Algo que não tendo realidade no presente se pode constituir. Como a vida de um ser humano, não tendo realidade pode constituir-se como utopia, desejada por futuros progenitores, ou na forma colectiva de futuro comum da espécie. Em termos demográficos esse futuro de gente não se encontra ameaçado, bem pelo contrário, a população humana da Terra não tem parado de crescer. Por outro lado nas célebres Memórias de um Zigoto podemos ler: "quando descobrimos que lá fora havia gente a acender velas para que vissemos a luz do dia e que essas pessoas eram o César das Nevez, dirigentes do PNR, skin heads nazis, e católicos ultra-conservadores, começaram os problemas. Era necessário quebrar o silêncio, lá por não existirmos, nem juridicamente nem de outra forma socialmente reconhecida, não quer dizer que nos prestemos a tudo. Nascer nestes termos tornou-se uma condenação".

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Tira o rosário do meu ovário

Há um ano atrás, depois de ter ido assistir às comemorações oficiais do Cinco de Outubro no Largo do Município onde o o hino nacional e o hastear da bandeira foram submergidos pelos gritos DEMISSÃO DEMISSÃO DeMISSÃO dos que se tinham ali juntado, cruzei-me na avenida da liberdade com um grupo estranho. Pessoas vestidas de branco, algumas com balões, cantavam o Alecrim Alecrim Dourado que nasce no Monte sem Semeado. Algumas vinham com bebés ao colo e crianças pela mão. Que seria aquilo? Tentei perceber melhor mas o tom esganiçado de alguém ao megafone não deixava descortinar o teor do encontro. Eram muitas e muitos, e lá fomos entendendo porque vinham com rosários e alguns de bíblia na mão e empunhavam cartazes com fotografias de crianças. Esta gente não tinha vindo celebrar a república nem passear pela avenida num dia de sol. Vinha em família reinvicar os direitos daqueles que não nasceram a poderem fazê-lo. Portanto uma amálgama de gente inexistente que de repente se encontraria representada, à força, por este discurso. Representar os fantasmas é de génio, porque é um manancial muito dado à vastidão e ao silêncio. Estes amigos do incomensurável vão voltar a passear pelas ruas de Lisboa amanhã, eu gostava de ter tempo para os ir entrevistar e saber das suas propostas no que diz respeito ao muito comensurável problema das crianças institucionalizadas que não encontram famílias que os adoptem, ou que os consigam adoptar. Ao muito palpável problema do aumento da pobreza no país que tem levado ao aumento da entrega de crianças a instituições. Esta gente não diz que é contra a despenalização da IVG mas é a isso que vêm, tentar pôr os rosários nos nossos ovários. Rosários de hipocrisia à Jonet - alguém que não exerce uma profissão há duas décadas sem ser ocupar-se do banco alimentar vem dizer que há um negócio da pobreza em Portugal e que os pobres não querem trabalhar.

domingo, 28 de setembro de 2014

A chamada da mulher para a hegemonia




Se a a generalização e coisificação da mulher na narrativa publicitária consolida real e torna-a co-autora dos dispositivos sociais e culturais que engendram a violência de género, a  chamada da mulher para a mesma narrativa mas do ponto  de vista de uma consumidora quase autónoma também consolidam real.  A realidade da mulher enquanto conquistadora do seu espaço de decisão através da liberdade que lhe proporcionaram educação, emprego,  direitos políticos e direitos sobre o seu corpo. Os mecanismos de reprodução social de determinado modo de vida que ocupamos  (o sistema das relações económicas que enformam o sistema político) como é o caso da publicidade, sabe que a mulher, para além de poder ser mesmificada em eternos anúncios da cerveja, é ao mesmo tempo uma consumidora cada vez mais qualificada. O seu corpo e a categoria que o representa são chamados ao protagonismo neste filme de lançamento de uma nova marca de telecomunicações no país. É uma mulher que lidera esta viagem ao mundo dos eventos televisivos, as séries, os filmes, os concertos, ama, aventura-se, canta e dança, sai ilesa.

O capitalismo engrenda no seu ventre as múltiplas escravaturas dos sujeitos outros/minorias. Ora tecendo os caminhos por onde se opera o patriarcado ora trazendo, neste caso, as mulheres para um aparente estado de igualdade (igualdade de se tornar produtor/consumidor) resultando nos dois casos a impossibilidade deste Outro/minoria em constituir-se Sujeito. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A veemência da realidade



Fumo um cigarro sozinha. Visualizo a partir de um quinto andar os fragmentos da memoria desses prédios altos onde se esconde o sol, atrás dos quais se encontra a fonte da controvérsia do desejo, das emoções e dos sentimentos em ebulição. O futuro parece-me veemente, não tanto quanto o presente. Entre x e y, a razão leva-me à distância quando o batimento do coração conduz-me à voragem dos traços deixados pelo encontro. O tempo leva tempo e é nesse tempo que tento contar sem limites e saborear o equilíbrio entre a vida e o sonho.    

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Não vão mudar o caralho!


"The person is dehumanized and then violence becomes inevitable. And that step is already and constantly taken with women." - Jean Kilbourne, num trailer que pode ser visto aqui.

Se te sair o euromilhões, vais poder comprar um palacete, um carro alemão e uma gaja boa (mas manténs o bigode, que é coisa de povo). É desta forma que a Santa Casa (graças a deus!) promove a sua "criação de excêntricos", numa narrativa que abusa de estereótipos e desqualifica pessoas e identidades. Quase sempre de classe e, agora, numa versão classista-sexista, o que torna a campanha duplamente engraçada (é só rir!) e, também por isso, triplamente nojenta.

Há generalização, coisificação e mesmização na narrativa publicitária. Já sabemos. Os exemplos sucedem-se e, pior, consolidam "real". A questão, no entanto, é que não basta dizer, como no Pastelaria de Cesariny, "Gerente! este leite está azedo!", se não há (ou, se há, é pouca) realidade pré-discursiva, o que precisamos mesmo é, como diz a Butler (salvé!): "[i]f the spectrally human is to enter into the hegemonic reformulation  of  universality,  a  language  between languages will have to be found"*. E essa (oh, essa!) nunca a encontraremos na publicidade. A procura tem-me causado bastante ansiedade, mas a descoberta é inevitável (or else...).

* BUTLER, Judith, «Competing Universalities». In Contingency, Hegemony, Universality – Dialogues on the Left. Londres e Nova Iorque: Verso, 2000, pp. 178-179.



sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Matar o Outro













Pistorius matou o Outro.
Matar o Outro nunca é o mesmo que matar "uma pessoa como nós". Há sempre boas desculpas para matar o Outro e sempre alguma atenuante porque, convenhamos, grave é quando as "pessoas como nós" matam "outras pessoas como nós".
O tal do Pistorius, que, pasmem-se, até já foi o Outro, ao competir olimpicamente com "outras pessoas como nós" e não com os "outros colegas dele", por sua conta ou em seu benefício, andou o julgamento a galope de uma narrativa em que Reeva Steenkamp  (como no caso do famoso Palito, também aqui o Outro raramente é nomeado, existindo apenas na sua relação com a "pessoa como nós" - "namorada" é o que aparece com mais frequência e há uma boa crítica aqui) talvez fosse uma puta. Mas, mesmo sendo puta, ele pensava ter atirado sobre um preto que lhe tinha invadido a casa e estava trancado na casa-de-banho, de modo que o que aconteceu foi que "uma pessoa como nós" tentando reagir sem pensar perante a invasão de um preto (sendo que matar é a única coisa que parece normal a toda a gente fazer-se aos pretos fechados em casas-de-banho em contexto sul-africano), acaba por "involuntariamente" matar uma mulher (puta) que cometeu o que alguém muito bem chamou de «esse erro feminino fatal que é estar no sítio errado à hora errada».

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

a (im)possibilidade de chafurdar como mulher

Lembro-me de decidir, com a ajuda de um artigo que a Teresa Joaquim escreveu há muitos anos (já demasiados, diga-se; nota-se bem a distância daqueles termos), que poderia permitir-me fazer uma tese 'sobre' um filósofo sem que isso traísse aquela que eu achava ser uma das minhas missões feministas de divulgar o pensamento de mulheres. 

Olhando hoje para a minha estante de livros, percebo que levava [chamada de atenção para o tempo verbal] essa missão bem a sério e é pouca a poesia ou a literatura que não seja de autoria feminina. Mas voltando à  Teresa Joaquim; a autora, licenciada em filosofia, escrevia sobre as suas inquietações quanto à relação entre filosofia, “mulheres”, o “feminino”. Uma das questões centrais, seguindo a filósofa Sarah Kofman, era a dúvida entre escrever sobre mulheres filósofas para lhes dar visibilidade ou escrever filosofia, sendo mulher, construindo um nome que seja seu, contrariando também a tradição de a filosofia se fazer no masculino. Quando questões similares se me colocaram, e apesar de todas as reticências quanto ao que é isso de escrever sendo mulher, escolhi a segunda hipótese (passe a imodéstia aparente). 

Agora que há a possibilidade de escrever neste blog de vaginas, e na medida em que sinto cada vez mais que estou em dívida por não ter ainda postado, volta-se a colocar a questão de escolher os feminismos como tema ou como ponto de partida quase imperceptível, mais colocado nos gestos que nos objectos agarrados. 

Inclino-me para uma terceira hipótese, aquela que ainda não sei bem qual é mas que ando a ensaiar desde que me deixei de militâncias (o que me pode afastar tanto da primeira hipótese, como das vaginas irmãs). Enquanto lido com as minhas inquietações - e ganho tempo - ficam as da Teresa. 
A (im)possibilidade de ser filósofa

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Contra a máquina de guerra sionista o género não é chamado: homens, mulheres e crianças palestinianas são uma só população.



“Aujourd’hui, nous devons être conscient-e-s de la façon dont le cliché « femmesetenfants » est véhiculé au sujet de Gaza et plus largement de la Palestine. Il accomplit plusieurs exploits rhétoriques, dont deux principaux : d’un côté, le regroupement des femmes et des enfants au sein d’une même catégorie indistincte, regroupé-e-s par « similitude » de genre et de sexe ; de l’autre, la reproduction du corps de l’homme palestinien (et plus généralement de celui de l’homme arabe) comme toujours déjà dangereux. »
[…]

« La machine de guerre israélienne, un peu comme celle des Etats-Unis en Afghanistan ou en Iraq, ne protège pas les queers, les femmes et les enfants palestinien-ne-s. Elle les tue, les mutile, les sépare de leurs proches – pour la simple raison qu’ils sont Palestinien-ne-s, et donc pouvant possiblement être tué-e-s en toute impunité à la vue du monde entier. Aujourd’hui, la différence entre les « femmesetenfants » palestinien-ne-s et les hommes palestiniens n’est pas la production de cadavres mais plutôt la circulation de ces cadavres à l’intérieur d’un cadre rhétorique dominant et grand public qui détermine qui a droit d’être pleuré sur la place publique comme véritables « victimes » de la machine de guerre israélienne. »

Ver o artigo completo aqui: 

« Les hommes palestiniens peuvent-ilsêtre des victimes ? Genrer la guerre d’Israël sur Gaza », Maya Mikdashi, Jadaliyya, 23 juillet 2014.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

"Control humidade"



Olho para esta imagem e vejo uma vagina.
Na verdade é uma imagem publicitária que ilustra a necessidade de se contactar uma empresa chamada “control humidade”, não vá a humidade ficar incontrolável.  

[imagem que aparece sistematicamente na minha página Fb]