terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O bosão de Higgs, o saco de Saraiva e a mulher atrás do vidro fosco e embaciado da nova revista de Expresso


Naquele programa incrível da TSF que é o "Governo Sombra" discutia-se, comme il faut, essa grande invenção para a humanidade que tinha sido o saco do jornal Expresso. Saraiva, que está para o dito saco como Higgs está para o bosão com o seu nome, teria explicado num texto (para o qual não farei qualquer esforço de pesquisa porque o arquitecto tem o talento muito especial de me meter na merda sempre que faz uma crónica que caio na esparrela de ler) que a ideia lhe tinha surgido no centro comercial das amoreiras. Uma mulher transporta sacos e o expresso, deixa cair um suplemento e baixa para apanhá-lo. À medida que o faz, deixa cair outro suplemento e, quando por fim agarra ambos os suplementos, deixa cair os outros sacos. E aí ele teve o seu momento eureka e vaticinou este desenvolvimento civilizacional: um saco para o expresso. Genial!

Há aquela anedota do Sócrates num barco contigo. És fotojornalista. Sócrates (o José) fala e, enquanto o faz, escorrega e cai à água. Não sabe nadar e está a afogar-se. Tu, fotojornalista, vês-te confrontada com um grande dilema: usas filme a cores ou preto e branco?

A invenção de Saraiva e o dilema da anedota estão ao mesmo nível de humanidade, que é aquele nível em que se encontra a amiba. A amiba, na era proterozoica, foi o devir-humanidade. Os Saraivas, no antropoceno, são o devir-amiba.

Nas "eras geológicas" do jornal expresso, Saraiva também está lá no passado mas estou certa que deixou o seu ADN em todo o mobiliário e, portanto, em cada inalação que se dê naquele espaço, a amiba toma conta dos corpos e cancela todas as operações neurológicas, culturais e emocionais das pessoas ao ponto de não perceberem que escolher uma imagem de uma mulher nua atrás de um vidro fosco e embaciado para ilustrar a nova revista do jornal, sob a auspiciosa promessa "revista e aumentada", é um bocado como escolher o filme a preto e branco para testemunhar o afogamento de Sócrates: é escolher entre possibilidades fora do quadro de qualquer capacidade de "outrar-se". É rejeitar reconhecer ao outro - neste caso à outra - qualquer capacidade de representar-se como humano e, pelo caminho, manusear a coisa não-eu-nem-outro-como-eu (porque também é possível "outrar-se" mas sem sair da modalidade masculina) para ser bastante útil e eficaz para representar coisas, objectos, "cenas", tais como revistas, designadamente as resedenhadas para serem "melhores". Ora, o comportamento da amiba é por demais semelhante: a utilidade e a eficácia ditam a sua existência.

Bom, mas até já me tinha esquecido desta merda quando hoje me mandam um link de uma "notícia" (chamemos-lhe assim, para facilitar) de outro jornal e eu nem queria acreditar que mulher nua atrás de vidro fosco is the new black.










O fosco aqui parece cumprir vários objectivos em simultâneo: por um lado é estético-moralmente conservador, no sentido em que o mamilo não se vê (o manual de utilização de imagens de mamilos passou a existir pela mão do Facebook; recordemos que sempre houve mamilos na arte sacra que representou profusamente a madona de leite, com ou sem bebé), é uma espécie de nudez envergonhada porque não é explícita, por outro é totalmente ambíguo do ponto de vista semiótico (com excepção do género, esse não é nada ambíguo), o objecto retratado pode ser, deste modo, o que cada um (cada um dos Um) quiser que seja, desde que esteja aumentada (está lá a deixa).

Ora, vão-se foder!

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