segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Como destruir as forças progressistas na Palestina? Silenciar as mulheres perigosas.




Um dos problemas da questão palestiniana é a difícil descrição de como a força ocupante, ou seja o Estado sionista, age no terreno. Com os acontecimentos das últimas semanas, principalmente em Gaza, algumas pistas foram evidenciadas pelos média. Alguns artigos e reportagens, mesmo que esse não fosse o objetivo primeiro, mostraram como perto de 2 milhões de palestinianos sobrevivem numa pequena faixa hermeticamente fechada por mar, terra e ar. Embora diferente, a “modalidade” de ocupação na Cisjordânia é igualmente opressiva. Diferente de Gaza (“sem” presença interna israelita), a Cisjordânia está longe de representar o que os mapas nos mostram. A superfície que visualizamos nos mapas não equivale à superfície à qual os palestinianos deveriam ter acesso segundo as tão famosas fronteiras de 1967. As várias cidades da Cisjordânia são cercadas por check points israelitas. Fundamentalistas sionistas ocupam ilegalmente este território. O Governo israelita compactua com a construção destas colónias e não só cria estradas exclusivas para os seus moradores como dá autorizações para porte de armas. Todos os dias colonos matam aleatoriamente palestinianos, sem que os primeiros sejam julgados. O exemplo do mar morto é interessante para compreender o traçado da Cisjordânia. Se olharmos para um mapa veremos que uma parte desse mar encontra-se situado no interior daquilo que é chamado Cisjordânia, no entanto, as estradas que conduzem a esse lugar de lazer são proibidas aos palestinianos. Ou seja, embora a distância do mar morto possa ser de 15 minutos para alguns, esses alguns não podem usufruir dele.

O que se passa hoje com Khalida Jarrar torna transparente os contornos da ocupação israelita na Cisjordânia. Parlamentar, dirigente do FPLP, militante feminista  (e durante vários anos advogada de prisioneiros políticos), Khalida Jarrar tem sido vítima de uma perseguição sem precedentes. Em 2010, por exemplo, Israel recusou a Khalida Jarrar um visto para fins medicais na Jordânia (ou seja, para os mais desatentos, ninguém sai dos territórios palestinianos sem a autorização de Israel). No dia 20 de Agosto de 2014 a casa de Khalida Jarrar em Ramallah foi invadida por cerca de 50 soldados israelitas, trazendo com eles uma ordem de expulsão. Uma pressão judicial do ocupante é exercida sobre ela para que saia de Ramallah e se instale em Jerico (desde os anos 80 que não se via tal "transferência" na Palestina ocupada). Esta ordem de expulsão interna é reveladora do carácter Kafkiano da ocupação israelita, mas ela esconde sem duvida um sentido lógico de expansão colonial. Para além das grandes cidades da Cisjordânia serem cercadas de check points, o exército israelita, como mostra bem esta ordenação, pode penetrar as cidades… Israel pode expulsar uma pessoa de Ramallah para Jericó, “porque sim”, controlando a sua mobilidade entre cidades com o estatuto de zona A. Este é mais um detalhe que vem dificultar a descrição da ocupação no território da Cisjordânia, uma vez que existem diferentes estatutos segundo a cidade em questão. Ramallah e Jericó fazem parte da zona A, cuja segurança e administração deveriam ser exclusivamente reservadas à autoridade palestiniana. Se na zona A, que corresponde apenas a cerca de 20% do território da Cisjordânia (e 50% da população), Israel atua sem rei nem roque, imagine-se no resto do território. O mandato de expulsão interna a que Khalida Jarrar foi sujeita, para além de mostrar a natureza da ocupação israelita, elucida a estratégia da força ocupante em silenciar as vozes mais progressistas da sociedade palestiniana. O tribunal militar israelita não justificou a “sentença” de deportação, apenas fez alusão a razões de “intelligence information”, o que reitera a ideia de estratégia política israelita visando personagens chave da resistência à ocupação. Claro que a força de intervenção de Khalida Jarrar em Jericó não será a mesma que em Ramallah, justificando-se assim a « deportação ». Khalida Jarrar recusou assinar a ordem de expulsão, respondendo: “you, the occupation, are killing our Palestinian people. You practice mass arests, demolish homes, kidnap people from their homes and deport them. It is you who must leave our home.” As razoes coloniais da expulsão da sua residência em Ramallah encontram-se na sua declaração : Israel tem medo da resistência que luta pela libertação e justiça na Palestina. Khalida Jarrar faz parte dessa resistência. Apoie-se aqui a sua tomada de decisão em recusar a submissão ao projeto sionista.  

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