"Durante o tempo da guerra, na América, era possível ver fotografias de operárias mostrando sorrisos que nunca mais voltariam a ver-se no fotojornalismo dos anos seguintes: sorrisos francos, quase apanhados de surpresa e irradiando confiança numa finalidade comum, na autonomia, na crença do valor próprio.
Acabada a guerra, as mesmas mulheres que tinham sido portadoras desses sorrisos voltaram à sua vida de subserviência. O projecto pós-guerra do Ocidente - de que Betty Freidan nos dá a medida exacta no seu livro A Mística Feminina, a história de uma campanha eleitoral muito mais sofisticada do que a demonizaçao do comunismo, levada a cabo na mesma altura -consistia em provar que a vida real estava de regresso e em restringir a definição de vida real ao consumo mais ou menos satisfatório de bens materiais, no contexto de um sistema de supremacia masculina e de hegemonia corporativa. As novas liberdades descobertas durante a guerra foram expulsas das palavras e cortadas das imagens; o tempo de maior intensidade e plenitude que muitos viveram, na sua própria terra ou longe
dela, passou a ser visto como anomalia e todos os que não conseguiam separar-se disso ou falar desse tempo de acordo com as novas regras, eram catalogados como caso desviante".
Greil Marcus, Marcas de Baton, uma história secreta do século XX, frenesi, p.306.
