sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

!!! E receitas da Bimby !!!


!!! Bolas de sabão !!! Amanhã 14h workshop de maquilhagem !!!


NÃO TRABALHO PARA O TEU PRAZER!


Está a decorrer um "Mercado Salto Alto" no Cinema São Jorge, promovido pela DRESS FOR SUCCESS com apoios públicos. Diz que é para «angariação de fundos para apoiar mulheres que procuram a sua autonomia financeira e reinserção social e profissional». Diz que, para este fim, o que é mesmo preciso é workshops de maquilhagem, nutrição e styling. Diz Teresa Durão, directora executiva da DRESS FOR SUCCESS: «Com este mercado as mulheres são vestidas para vencer, calçam o salto alto e preparam-se para conquistar o mercado de trabalho». Nós dizemos, ao invés, que esta visão de mulher, de mercado, de trabalho e de sucesso deveria ir toda para o caralho. E vamos lá dizê-lo.

Vai ser um evento!
Amanhã, dia 13 de Dezembro, às 14h00 no Cinema São Jorge

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

It ain't over till the lady had been raped

    O Rapto das Sabinas, Pietro de Cortona

Ainda hoje, reverbera um pouco por todo lado esta fatídica afirmação de que "tiveram o que mereciam", ora porque se vestem assim, bebem assado e andam por ruas que não-sei-quê. Mais fundo no nojo, o degrau seguinte de "nem sequer merecer ser violada" (esse "privilégio" com capacidade de ascendência mitológica fundacional, como as sabinas), vão coisas que se arrogam de pertencerem à humanidade quando mais não são do que a prova de que a teoria da reincarnação é válida e que não é preciso morrer para uma pessoa se tornar um verme viscoso, que apetece esmigalhar na sola do sapato e ouvir devagarinho o "bfreshgrrrr" da sua insignificância.

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

México - Crónica de mortes anunciadas

A multidão que tomou as ruas do México e de outros lugares do mundo exigindo respostas do governo sobre os 43 estudantes do secundário desaparecidos são homens e mulheres corajosas. Para além disso são parte do único exército que poderá defrontar e vencer a nova ordem mundial capitalista. 

Em 2011 Angélica Liddell trouxe a Lisboa a desmesurada e assombrosa peça A Casa da Força. Peça que ganhou em Espanha, de onde a actriz e encenadora é natural, o Prémio Nacional de Literatura Dramática 2012.  Neste texto Liddell dá-nos conta do feminicídio que ocorrre em Ciudad Juarez desde cerca de 1990. 

"Dor, humilhação, violência. Nas suas peças, as vítimas são frequentemente mulheres. É aliás esse o caso em La casa de la fuerza.
Falam-me às vezes de feminismo mas, como já disse, não tenho a sensação de pertencer a um grupo, de aderir a uma ideologia. Por outro lado, tenho plena consciência de ser mulher, isso sim. Tenho mesmo orgulho em ser mulher. Tal como tenho consciência da mortalidade ou da dor, tenho consciência – uma brutal consciência – de ser mulher. Não posso evitar sentir-me mulher. Está enraizado em mim, não posso desfazer-me disso. E isso implica suportar uma série de coisas, como estes pequenos rituais de humilhação que nos são impostos pelo simples facto de sermos mulheres. É para mim inultrapassável. Tenho então de transformar a dor noutra coisa qualquer: uma coisa bela. Não que eu encontre beleza no horror, mas preciso de transformar o horror para sobreviver". 

No final da peça entram em cena mulheres mexicanas que relatam as experiências da perda de filhas muito jovens, violadas e assassinadas. Muitas delas encontradas pelos familiares que as vêm desenterrar a campos baldios onde deambulam outros que também procuram, por vezes anos e sem encontrar.
A impunidade a frequência e a atrocidade destes crimes motivou na última década reflexões no campo dos estudos e no campo da luta das mulheres. Ciudad Juarez, com as suas quase 4 mil mulheres assassinadas tornou-se a casa dos horrores do genocídio de género. 

O filme Cidade sob Ameaça, de 2006, ajuda-nos a compreender melhor porque razão isto se passa. 

"Sinopse

Graças ao Tratado de Livre Comércio empresas do mundo inteiro montaram fábricas no México, na fronteira com os Estados Unidos. Com mão-de-obra barata e isenção de impostos, estas companhias fabricam produtos a baixo custo, que são vendidos nos Estados Unidos. Nas mais de mil fábricas de Juarez um televisor é fabricado a cada três segundos e um computador a cada sete. As fábricas contratam mulheres, que aceitam salários menores e reclamam menos dos expedientes longos e condições ruins de trabalho. Muitas fábricas operam 24 horas por dia. Muitas mulheres são atacadas a caminho do trabalho ou de casa, tarde da noite ou no início das manhãs. As companhias não garantem a segurança dos funcionários..."

Ciudad Juarez fica na fronteira entre o México os EUA, fronteira fortemente controlada para impedir que milhares de mexicanos se desloquem em busca de trabalho. Os EUA impedem que esta mão de obra entre no país e deslocam as suas fábricas para essa zona de fronteira onde a mão de obra é exponencialmente mais baixa e onde beneficiam de isenções fiscais ao abrigo do acordo NAFTA, sob a cobertura e o apoio dos poderes locais, oligarquias apoiadas pelo narcotráfico: as minorias que lá como cá, ganham com a completa desregulação e exploração. Para as mercadorias não há fronteiras para as pessoas sim.Tudo  isto secundado por medidas de expropriação de terras por parte do governo a milhares de agricultores no México (contra as quais se ergueu a revolta zapatista de Chiapas) que obrigou a um êxodo de pessoas sem nada ou muito pouco em busca de um meio de vida em cidades como Juarez. 
O filme explica a razão de ser da impunidade destes crimes, como o poder local está apoiado em Washington pelo poder económico de tal forma que o trabalho jornalístico sobre as mortes da personagem principal é censurado no jornal americano para onde trabalha. De tal forma, e já fora do filme, que "acadêmicos quando tentam expor também suas opiniões, correm o risco de serem censurados, como ocorreu com Rita Segato em 2005 no momento que foi até Juárez com o compromisso de permanecer por nove dias para participar de um fórum sobre os feminicídios ocorridos. Tal evento foi interrompido por uma série de acontecimentos que culminaram, no sexto dia, com a queda do sinal de televisão a cabo na cidade inteira justamente no momento em que a antropóloga iria expor a sua versão dos crimes em uma entrevista com a jornalista Jaime Pérez Mendoza (SEGATO, 2005, p. 266). Após isso, Segato se viu obrigada a sair imediatamente da cidade, pois o corte de sinal da TV era um aviso de que ela já teria ido longe de mais com as suas versões acerca dos fatos" [artigo Ciudad Juárez: a cidade do silêncio
por Victor Henrique da Silva Menezes]



O presidente da câmara da zona de Guerreiro que mandou executar os estudantes em 26 de Setembro deste ano pertence a esta oligarquia. Os manifestantes sabiam-no e era por isso que protestavam. 

"Como morreram e onde estão os corpos
Segundo a Procuradoria do México, quando o prefeito soube da manifestação, ele ordenou à polícia que interceptasse os veículos. O intuito era evitar que os distúrbios interrompessem um discurso de sua mulher, María de los Angéles Piñeda, diretora de uma organização de proteção à criança. Houve confronto com as forças policiais e seis civis morreram. Alguns estudantes conseguiram fugir, mas 43 deles foram dados como desaparecidos.
As investigações federais mostram que os 43 estudantes foram detidos e levados pela polícia. No entanto, eles não foram encaminhados à delegacia, mas sim entregues a representantes dos Guerreros Unidos, um dos cartéis que comanda o tráfico de drogas no Estado. Amontoados em três veículos, os jovens foram levados ao lixão do município de Cocula. Segundo pistoleiros ouvidos pela procuradoria, cerca de 15 estudantes chegaram ao local mortos por asfixia. Os sobreviventes foram executados" [notícia completa]

Para acompanhar a situação das mulheres em Ciudad Juarez o site  de uma associação civil mexicana Nossas Filhas de Regresso a Casa 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

"Era uma santa vida!", confessam as esposas dos militares



É imprescindível a interpretação da Guerra como fenómeno não exclusivamente masculino, para tal é preciso retirar as mulheres da invisibilidade no espaço de opinião. Saber como esta operou na vida privada de tantas recém-casadas, ansiosas e solidárias com a situação dos maridos, atentas a outras realidades de uma experiência traumática que, ainda assim, conseguiu trazer-lhes boas recordações. São esposas de militares de carreira e oficiais, que seguiam as «Cartas de Chamada» em longas travessias de barco até chegarem a essas Áfricas onde lhes esperava o papel de apoiantes, ombro de consolo à desmoralização que se abatia nos homens em missão. Transparece uma certa ingenuidade que atravessa «uma geração que, sem saber porquê, sem questionar, ia», pois vivia-se um tempo de engano, em que as províncias ultramarinas eram Portugal e o patriotismo «um sentimento, que não se explicava nem se justificava».
Em África no Feminino, Margarida Calafate Ribeiro inspirou-se na análise de Benjamim Stora sobre o impacto da guerra na Argélia na sociedade francesa, no intuito de se considerar a guerra colonial um assunto interno a Portugal e aos países africanos. Neste sentido, o livro contribui para encurtar o divórcio entre a dimensão privada e colectiva da memória, já existente «nos tempos da Guerra, entre o discurso público sobre uma guerra silenciada e que oficialmente não existia e o conhecimento privado que dela tinham os portugueses mobilizados e as suas famílias». Se antes do 25 de Abril se fingia que não existia guerra, depois cedeu-se à perplexidade, absurdo e  incapacidade de falar sobre tal. «São coisas de que não se pode falar. Viveram-se na altura e depois não se fala. Por pudor, por horror».
É portanto no registo de revisitação, procura de sentido para aquele período de vida e enquanto apanhado da variedade de perspectivas, que estes relatos colaboram na análise psicossociológica de uma das fases mais sombrias do tempo colonial. Porque partiam, voluntariosas, estas mulheres para o desconhecido? A motivação era generosa: coragem, amor e dedicação. Não é comum acompanhar maridos para cenários de guerra, mas o regime incentivava essas idas deixando e apoiando a permanência das mulheres em territórios ultramarinos, porém, entendido publicamente como razões, vontades privadas. No entanto, as esposas exerciam um papel, eram um complemento às tarefas de apoio do Movimento Nacional Feminino, da Cruz Vermelha, à propaganda que impelia as mães a «sacrificar os seus filhos pela Nação». Assim, a presença da mulher em África foi uma arma política muitíssimo útil: «não deviam mover-se, nem pensar, nem agir», mas «ser a mãe, a irmã, a distração amorosa, a imagem feminina, boa, a pura gota de água, a imagem também da casa perdida, do país perdido, da família perdida».

Continuar a ler sobre as acompanhantes dos militares.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014